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Regresso à Memória Dois acontecimentos traumáticos marcaram a minha vida: A guerra de Angola e o exílio. Contra o primeiro usei o silêncio e o esquecimento como terapia. Procurei extirpar todos os resquícios da memória que me pudessem lembrar de lá ter estado. Quase que consegui. Para o segundo, foi mais difícil. Mesmo se à partida tinha queimado todas as pontes para evitar a tentação do retorno, veio depois o 25 de abril abalar as fundações da minha resolução. Quando parti – já lá vai quase meio século – vinha muito zangado com a terra que me vira nascer. Liquidei tudo o que tinha.  Só trouxe roupas e livros. Muitos livros. Divorciava-me do país, mas não da sua língua, nem dos seus escritores. Quando aconteceu o golpe de estado dos capitães, com a promessa do fim da guerra colonial, da instauração da democracia e do primado da liberdade, em todas as suas declinações, o meu primeiro impulso foi refazer as malas do regresso. Quis o senso das realidades que lhe resi...
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Retrovisor A memória é o retrovisor da vida. Recordar é tentar reconstruir os meandros do caminho percorrido. Por vezes foi a travessia do oásis, outras, do deserto, os olhos na miragem da esperança e a alma no desterro. Olho para trás. Esforço-me a enxergar tão longe quanto a lembrança mo consente. Há recordações recentes que começam a esfumar-se no nevoeiro da distância, mas há outras, as mais antigas, que vivem como se fosse ontem. Velhas fotografias, cartas de amor e de guerra, histórias de família, de exílio e de saudade; uma vida passada entre três continentes e atravessada por dois séculos; partilhada entre outras gentes, latitudes e identidades, eis o que me resta, o espólio memorial com que me abalanço a retraçar o passado. Nasci durante a segunda guerra mundial, num mundo a ferro e fogo. Cresci num regime de ditadura, fascista, sem liberdade, sem horizontes, sem voto nem palavra. Fui enviado para Angola, combater os negros, sem paz nem piedade. Emigrei c...