Regresso à Memória Dois acontecimentos traumáticos marcaram a minha vida: A guerra de Angola e o exílio. Contra o primeiro usei o silêncio e o esquecimento como terapia. Procurei extirpar todos os resquícios da memória que me pudessem lembrar de lá ter estado. Quase que consegui. Para o segundo, foi mais difícil. Mesmo se à partida tinha queimado todas as pontes para evitar a tentação do retorno, veio depois o 25 de abril abalar as fundações da minha resolução. Quando parti – já lá vai quase meio século – vinha muito zangado com a terra que me vira nascer. Liquidei tudo o que tinha. Só trouxe roupas e livros. Muitos livros. Divorciava-me do país, mas não da sua língua, nem dos seus escritores. Quando aconteceu o golpe de estado dos capitães, com a promessa do fim da guerra colonial, da instauração da democracia e do primado da liberdade, em todas as suas declinações, o meu primeiro impulso foi refazer as malas do regresso. Quis o senso das realidades que lhe resi...