Regresso à Memória

Dois acontecimentos traumáticos marcaram a minha vida: A guerra de Angola e o exílio.
Contra o primeiro usei o silêncio e o esquecimento como terapia. Procurei extirpar todos os resquícios da memória que me pudessem lembrar de lá ter estado. Quase que consegui.
Para o segundo, foi mais difícil. Mesmo se à partida tinha queimado todas as pontes para evitar a tentação do retorno, veio depois o 25 de abril abalar as fundações da minha resolução.
Quando parti – já lá vai quase meio século – vinha muito zangado com a terra que me vira nascer. Liquidei tudo o que tinha.  Só trouxe roupas e livros. Muitos livros. Divorciava-me do país, mas não da sua língua, nem dos seus escritores.
Quando aconteceu o golpe de estado dos capitães, com a promessa do fim da guerra colonial, da instauração da democracia e do primado da liberdade, em todas as suas declinações, o meu primeiro impulso foi refazer as malas do regresso. Quis o senso das realidades que lhe resistisse até ver aonde é que o comboio ia parar. Com a política da “terra queimada” com que o partido comunista português, na altura, procurou alcançar o poder, evidentemente que os motivos de preterir o regresso foram aumentando.
A situação em Portugal degenerou em crise. Chegaram-me mesmo ecos de uma guerra civil em gestação, entre o norte e o sul. Os filhos cresceram, a transplantação na nova terra foi-se enraizando, as ramadas alargaram-se em netos. Por cá fiquei.
Voltei ao país espaçadamente, mais amiúde quando os pais eram vivos. Os amigos, com raras exceções, tinham-se desvanecido no desencontro das nossas trajetórias.
A verdade é que raramente voltava de lá contente. Havia uma certa mentalidade, uma certa realidade que me fazia lembrar o Portugal ao qual tinha voltado as costas. De tal modo que as visitas começaram a fazer-se raras. Entretanto, preferi viajar para outras paragens, conhecer outras gentes, ver se o outro lado mundo era muito diferente deste.
Em 2016, pela primeira vez, depois de lá ter passado uma parte do verão, regressei a casa com mágoa. E, tanto mais que à partida, esperava o pior. Cá fora, só ouvia falar da crise. Receava que o ditado: “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, se viesse a confirmar em prejuízo de umas férias bem passadas.
Para minha surpresa, fui encontrar, pelo menos por onde andei, entre Lisboa e o Algarve, uma população solícita, amável, simpática, cívica. Muito cívica até. Incluindo automobilistas e peões. E, como sempre, hospitaleira, aberta aos estrangeiros, não obstante as hordas de turistas por todo o lado.
O que se passou afinal? Penso, sem possuir a mais pequena prova do que avanço, que esta atitude do povo português é, por um lado, o resultado duma resiliência histórica apoiada num sentido de solidariedade ancestral que a modernidade não matou ainda, e, por outro, o resultado duma instrução e de uma cultura consequentes com a política de educação nacional que os vários governos, após a queda do antigo regime, têm vindo a promover.
Na verdade, uma sociedade, para bem funcionar, precisa de cidadãos instruídos, educados e com uma boa dose de otimismo. Com confiança em si e no futuro. Com iniciativa e imaginação. Foi essa a impressão que o país me deu no verão daquele ano.
Para cimentar ainda mais esta convicção, acabo de constatar que Portugal, na classificação dos países mais pacíficos do mundo, segundo o “Global Peace Índex” de 2017, está em terceiro lugar, depois da Islândia e da Nova Zelândia que são, não esqueçamos, sociedades insulares, isto é, naturalmente protegidas do exterior. Uma sociedade pobre e pacífica, como Portugal, não deixa de ser sui generis.
Esta reconciliação com o alfobre natal trouxe-me as memórias de outros tempos à baila. Em vez de procurar esquecer, vou tentar relembrar.


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