Retrovisor
A memória é o retrovisor
da vida. Recordar é tentar reconstruir os meandros do caminho percorrido. Por
vezes foi a travessia do oásis, outras, do deserto, os olhos na miragem da
esperança e a alma no desterro.
Olho para trás. Esforço-me
a enxergar tão longe quanto a lembrança mo consente. Há recordações recentes
que começam a esfumar-se no nevoeiro da distância, mas há outras, as mais
antigas, que vivem como se fosse ontem.
Velhas fotografias,
cartas de amor e de guerra, histórias de família, de exílio e de saudade; uma
vida passada entre três continentes e atravessada por dois séculos; partilhada
entre outras gentes, latitudes e identidades, eis o que me resta, o espólio
memorial com que me abalanço a retraçar o passado.
Nasci durante a segunda
guerra mundial, num mundo a ferro e fogo. Cresci num regime de ditadura,
fascista, sem liberdade, sem horizontes, sem voto nem palavra. Fui enviado para
Angola, combater os negros, sem paz nem piedade.
Emigrei com mulher e
filhos, para escapar ao país esclerosado dos velhos dinossauros. Cá fora,
aprendi novas profissões, novas línguas e culturas e, quanto o pão do exílio é
amargo.
Na verdade, não emigrei.
Sempre fui um exilado. Mesmo na terra onde nasci e me fiz homem, já o era. Tive
a minha língua como tábua de salvação. Como boia de naufragado.
Estrangeiro, nunca fiz
minhas as línguas dos outros. Apátrida, nunca fiz minhas as outras terras. O
exílio é a minha pátria.
Viajei. Conheci países e continentes.
Observei culturas e religiões. Não para as compreender, mas para me
compreender.
Chegado aqui, decidi-me
ousar a viagem do passado. Recuperar pedaços de outros tempos, de outros
lugares e de outras gentes. Trazer ao presente uma parte do mundo que desfilou
no meu retrovisor, antes que o esquecimento dele se possa amparar.
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